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“É só um ovo?” - O papel da liderança na cultura de segurança dos alimentos

há 10 minutos
2 min de leitura

Raquel Ribeiro Dias Santos

RS Consultoria e Treinamentos em Alimentos LTDA.


Na atuação como responsável técnica e consultora em indústrias de ovos, é comum escutar de proprietários e gestores: “Mas precisa disso tudo?” ou “Nossa, mas é só um ovo”.


Na prática, muitos cumprem as exigências legais, mas nem sempre compreendem a importância da segurança dos alimentos. Sem conhecer os riscos envolvidos, muitos controles passam a ser vistos como burocracia, e não como medidas de proteção ao consumidor.


A segurança dos alimentos pode ser entendida como o conjunto de práticas e controles adotados para prevenir perigos que possam tornar o alimento impróprio ou causar danos à saúde do consumidor. Na indústria de ovos, esses cuidados acompanham todas as etapas do processo, da recepção da matéria-prima ao armazenamento e à comercialização.


Um dos principais desafios é fazer com que essa compreensão comece pela liderança. Quando o próprio gestor descumpre as boas práticas ou solicita o reprocessamento de produtos que deveriam ser descartados, transmite ao colaborador a mensagem de que aquele controle não é realmente importante.


O mesmo ocorre quando procedimentos são cumpridos apenas nos dias de fiscalização. É comum observar, nesses momentos, redução da velocidade da linha e maior rigor nas atividades. Em algumas pequenas empresas, por exemplo, não há, no dia a dia, um colaborador realizando efetivamente a ovoscopia; no dia da fiscalização, porém, o profissional é disponibilizado e a atividade passa a ser realizada.


Construir uma cultura de segurança dos alimentos exige que proprietários e gestores compreendam os riscos microbiológicos, as possibilidades de contaminação, os requisitos legais e, principalmente, por que cada controle existe e qual risco pretende controlar.


Também cabe à liderança aproximar produção, qualidade e regulatório. Produtividade, eficiência e rentabilidade são fundamentais, mas não podem ser buscadas em detrimento da segurança dos alimentos. Produzir mais nem sempre significa produzir melhor.


Os impactos das doenças transmitidas por alimentos mostram a dimensão dessa responsabilidade. No Brasil, entre 2016 e 2025, foram notificados 8.007 surtos de doenças de transmissão hídrica e alimentar, envolvendo 130.463 pessoas, 11.066 hospitalizações e 141 óbitos. O agente etiológico foi identificado em apenas 21% dos surtos.


Nos Estados Unidos, o USDA estima em aproximadamente US$ 74,7 bilhões os custos relacionados às doenças transmitidas por alimentos. Somente as infecções por Salmonella não tifoide representam cerca de US$ 17,1 bilhões desse impacto.


Esses números mostram por que a segurança dos alimentos não pode ser tratada como mera burocracia. Quando a liderança compreende os riscos e dá o exemplo, os controles deixam de existir apenas para atender à fiscalização e passam a fazer parte da rotina da empresa.


Afinal, não estamos produzindo apenas ovos. Estamos produzindo alimentos e assumindo, todos os dias, uma responsabilidade com a saúde do consumidor.



 
 
 

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